Crônica: "Por que eu?"

Posted by Domingos Santiago On 2 comentários


Esta crônica foi escrita em setembro/2009 e estou publicando novamente neste blog. É um fato fictício, mas que fala um pouco de cidadania. Não esqueçam de avaliar.

- E porque eu tenho que ceder meu lugar? - pergunta a moça, irritada.
- Porque você é a pessoa mais jovem neste ônibus não vê? - responde a senhora do lado.
- Por que a senhora mesma não faz isso?
- Ô garota, vê se te manca. Dá logo teu lugar. - falou uma pessoa do fundo da lotação.
- Todo mundo vai se meter e virar juiz agora é? - fala a moça sem paciência.
- Não é isso. Você não nota que esta é uma senhora de idade e que tem seus direitos? - diz o senhor da frente.
- Eu também tenho meus direitos. Você sabe de onde venho?
- Minha filha, não importa de onde você veio. Todos nós trabalhamos e estamos muito cansados. - responde o senhor do lado.
- Trabalho o dia todo numa loja no centro. São doze horas por dia. Só paro para almoçar e olhe lá. Quando pego o ônibus tem um monte de gente querendo mandar em mim. Ah, tenha dó! - diz a moça muito irritada.
- Como assim? Você acha o quê? Sou empregada doméstica. Lavo, passo e cozinho o dia inteiro. Minha coluna não aguenta mais. - depõe uma senhora sentada na cadeira da frente.
- Sou professor, passei o dia todo em pé. Leciono em cinco turmas diferentes por turno, só hoje fiquei com 18 turmas. Estou morto, não posso dar meu lugar.
- Eu também não posso. Tenho varizes e à noite elas me incomodam muito.
- Eu passei o dia todo atrás de emprego. Meu pés estão calejados.
- Vocês acham que vida de ambulante é fácil? Tenho que andar de lá prá cá...
- Eu trabalho longe e ainda pego quatro ônibus...
- Eu acordo as três da manhã todos os dias. Estou exausto...
- Eu estou acordado desde ontem. Ainda nem dormi. Sou segurança. Estou exausto também.
- Eu só vou descer no terminal.
- Eu não posso ceder meu lugar, estou em pé.
- Eu tenho artrite, não posso...
- Eu tenho carteirinha de livre acesso.
- E porque o cobrador não dá seu lugar para essa pobre velhinha? Ele passa o dia todo sentado... - sugeriu alguém.
- Imagina? Não posso. Como vou passar o troco?
- E porque essa velha está aqui atrás? O lugar deles não é lá na frente?
- Eu não posso dar meu lugar porque estou passando mal. Tenho que ficar na janela.

A confusão continuava. As pessoas lançavam seus argumentos para não ceder o seu lugar à velha senhora. O ônibus trepidava.
A senhora olhava tudo com bastante atenção, exatamente do jeito como havia entrado na lotação. Não havia soltado um única palavra. O barulho continuava, as pessoas discutiam. De repente aquela voz fina e cansada ecoou.
- Calem-se!
Todos ficaram pasmados. Aquela senhora idosa, de cabelos brancos gritou as primeiras palavras desde que embarcara.
- Eu por acaso pedi um lugar a alguém? Sou velha sim. Tenho 80 anos e sei dos meus direitos. Já trabalhei no comércio, acordava muito cedo e hoje sou professora aposentada. Não reclamo da minha velhice, muito pelo contrário, agradeço a Deus por estar viva e saudável. Sempre acordei as três da manhã e ia trabalhar com minha família na feira da cidade, caminhávamos oito quilômetros. Fui professora. Minha vida não foi fácil, nem por isso deixava de ser cordial e de respeitar os direitos dos outros. Muitas vezes deixe de pensar apenas como "eu" e pensar em "nós". Quantas vezes abri mão das coisas que gostava para educar seus pais, vocês e até mesmo seus filhos?
Silêncio total no ônibus. As pessoas não conseguiam olhar para mais ninguém. A viagem tornou-se a mais silenciosa.
- A vida é passageira. É como um ônibus. Nós somos o motorista. Se dirigirmos mal, todos vão reclamar. Mas se dirigimos bem, a viagem torna-se agradável, mesmo que ela seja cheia de outros problemas. Se perdemos o ônibus, temos que mudar nossa vida toda, mesmo que seja por apenas um dia. - completou a velha senhora, já sem voz.
O único barulho que se ouvia era do movimento na rua. A velha continuou em pé. Todos morrendo de vergonha torciam para que sua parada chegasse logo. E foram descendo, um a um, sem mas nenhuma palavra.
A campanhia do ônibus tocou pela última vez antes do terminal, quando a velha desceu e seguiu pela rua enquanto todos se preparavem para descer no terminal.

Setembro, 2009.
Domingos Severino Santiago

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Imagem: Grupo de Ajuda Mútua | Cuidar de Idosos
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