"Bruna Surfistinha" não é pornô

Posted by Domingos Santiago On 0 comentários
O filme mais esperado do ano estreou em 25 de fevereiro de 2011 nas salas de cinema do país. Bruna Surfistinha é o primeiro filme do recém estreado no mundo cinematográfico, Marcus Baldini, que antes de chegar ao Grupo Dínamo já trabalhou na MTV, S. Filmes e TV Zero. O diretor que é formado em rádio e TV pela USP acumula grande experiência na direção e montagem de filmes publicitários. Ganhador de alguns prêmios nacionais e internacionais, já produziu campanhas para empresas como Vésper, Kaiser, Natura, Folha de São Paulo e Grendene.

Com produção da TV Zero e distribuição da Imagem Filmes, Bruna Surfistinha foi até o momento a maior estréia do cinema nacional de 2011, e é baseado no best-seller literário O doce Veneno do Escorpião: o Diário de uma Garota de Programa de Raquel Pacheco, dona da história. Com duração de 109 minutos é estrelado por Déborah Secco, que vive a protagonista da história, Cássio Gabus Mendes e Drica Moraes. O filme estreou em 342 salas e já arrecadou mais de 10 milhões de reais, atingido nos primeiros quatro dias de estréia a marca de 500 mil espectadores.

Bruna Surfistinha conta a história de Raquel Pacheco, uma garota da classe média paulistana “diferente das outras garotas” como ela mesma se define. Raquel se sente desajustada na escola, onde sofre bullying por ter protagonizado uma cena de sexo oral com o colega, e do conflito familiar que vive, principalmente com o pai e o irmão. Decide aos 17 anos de idade fugir de casa. Agora, sem regras decide tomar conta da própria vida. Toma a decisão surpreendente de se tornar garota de programa. Começa a viver com outras garotas num privê, onde recebem clientes. Entre as garotas, está a intempestiva Janine (Fabíula Nascimento) e Babi (Cristina Lago) que veio a se tornar a melhor amiga. Raquel evolui de garotinha passiva e que se esforçava para não chorar, tornando-se o maior sucesso do prostíbulo adotando o codinome Bruna.

Cada vez mais acostumada com o trabalho, Bruna demonstra prazer em cada programa. Conhece a sofisticada Carol, que lhe apresenta a prostituição de alto luxo. Bruna também passa a envolver-se com droga. E é com este envolvimento com drogas que acaba sendo expulsa do prostíbulo pela dona, Larissa (Drica Moraes). Com a ajuda de Carol, aluga um flat para receber seus próprios clientes, contando também com o apoio de Gabi que se torna sua secretária. Bruna cria então o seu blog que começa a atrair muitos acessos. Começando a atribuir mais tarde notas ao desempenho sexual dos clientes o que deslancha em muitos acessos ao seu blog e a projeção nacional, sendo convidada a participar sozinha de um programa de TV.

Bruna Surfistinha, como ficou conhecida, atrai cada vez mais clientes satisfazendo todo tipo de fantasia sexual. E cada vez mais famosa e com dinheiro, Bruna começa a se envolver ainda mais com as drogas, comprometendo o negócio e a amizade que tem com Babi. O blog se reduz a poucos comentários maldosos e Bruna o exclui e a sua carreira torna-se cada vez mais decadente. A dependência a faz gastar todo o dinheiro para o consumo de cocaína e a cancelar diversos programas agendados.

Sem mais nada, Bruna se vê reduzida a fazer programas em um quarto a 20 reais com todo tipo de cliente. Com a saúde comprometida Bruna é internada e surpreendida com uma proposta do melhor amigo e primeiro cliente, Hudson, com quem cultivou uma relação de carinho. Ele a convida para viverem juntos e ela deixar de ser garota de programa. Bruna decide continuar com sua vida independente e solitária. E depois de 800 programas parou de se prostituir.

Bruna Surfistinha também tratou de um tema cada vez mais atual. E um aspecto importante do bullying tratado no filme é aquele que é sofrido dentro de casa. Raquel Pacheco, dona da história não fugiu de casa apenas porque foi hostilizada na escola, mas por sua relação parental estar cada vez mais conturbada. A família exigia que ela fosse igual às outras garotas, mas a própria Raquel sentiu que isso não era possível e resolveu fugir de casa, apesar do filme não deixar claro que este seria o motivo que levou Raquel a abandonar a família e o conforto.

O filme de Marcus Baldini não é nem de longe uma produção pornográfica. Bruna Surfistinha é apenas sensual - com cenas de sexo bem produzidas e protagonizadas pela atriz Deborah Secco. É ousado falar de prostituição ainda mais quando se trata de uma história real. Vale salientar que o filme gera reflexão e discussão sobre o moralismo e preconceito tosco da sociedade. E Bruna Surfistinha contou a história de Raquel Pacheco de forma objetiva, tratando dentre outros assuntos de drogas, bullying e a influência das redes sociais.

Apesar da superprodução o filme não explorou tudo o que podia – o aspecto mais chocante da vida dela, uma adolescente de classe média e que parte para uma vida extremamente conflitante e agressiva. O drama familiar foi tratado tão superficialmente que deu a entender que Raquel não se comovia com a própria situação. Ela não parecia se importar em ter deixado a família de lado – não parecia sofrer. Se o aspecto psicológico da personagem fosse tratado talvez tornasse a trama mais intensa e despertasse outros tipos de emoções no expectador. Bruna Surfistinha pode não agradar pelas cenas eróticas ou comentários de quem assistiu e passou suas impressões sobre o filme, mas quem for despido de qualquer preconceito e estiver disposto a assistir a história passageira – da lama ao estrelato, de uma mulher que começou com um blog na internet, virou best-seller literário e agora uma produção cinematográfica vai se surpreender com os efeitos visuais e a coragem da protagonista que extrapolou os limites desta sociedade preconceituosa e hipócrita.
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