Preconceito: eu escolho isso?

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Preconceito: eu escolho isso?
Somos uma sociedade preconceituosa e moldada por concepções religiosas. Não aceitamos as diferenças étnicas, religiosas e sexuais.


Quero começar meu comentário com um trecho da bíblia: "Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor." 1João 4:8

Independentemente de acreditarmos em Deus ou não, uma coisa é certa: precisamos uns dos outros. Vivemos em uma sociedade em que um depende do outro. Mas somos uma sociedade também que não gosta de pensar! Matar é crime - diz a constituição. E Bíblia (nosso maior condutor moral) completa isso. Por que muitas pessoas matam? Porque são humanas. E o homem foi criado, assim, imperfeito.
A pior coisa que está no ato de matar não é ferir os mandamentos da Lei de Deus ou violar certo artigo da constituição, mas ferir o direito do outro - de ir e vir, e de ser responsável por suas próprias escolhas.

Respeito. Esta é a palavra que deveria servir para moldar a sociedade. Quem quer que tenha nos feito, ou como passamos a existir, a verdade é que fomos criados assim: cheios de preconceitos, de fobias, de defeitos. Isso faz da parte da natureza humana. O preconceito tem diversas facetas e nunca vai deixar de existir. Mas somos mutáveis. Podemos mudar de opinião, ter novas concepções sobre o mundo. Isso quer dizer que nosso preconceito (tudo mundo tem sobre alguma coisa) pode deixar de existir ou não. O que precisa ser combatido, aí sim, é a discriminação. E o preconceito quase sempre vem carregado com ela.

Comecei o comentário com o trecho da Bíblia que diz: "Deus é amor". Isso de propósito, pois nossos "valores" são religiosos. Se Deus é amor, ele aceita as diferenças, as particularidades e a individualidade de cada um. Pense numa mãe que tem vários filhos. Todos eles são diferentes, causam decepções, mas nem por isso ela vai desejar mal. Deixa que eles façam suas próprias escolhas e ficam sempre torcendo por eles - sem interferir no livre arbítrio. Os filhos erram, alguns até decepcionam demasiadamente. Mas ao invés de julgar ela apenas o ama, o apoia, e sobre hipótese alguma vai lhe desejar algum mal pior àquele que ele já sofreu. Este é um amor incondicional. Vou ser redundante: não impõe condições.

Este foi um exemplo humano - uma mãe, que é cheia de falhas, defeitos e preconceitos. O filho erra, mas ela perdoa. Ela também não vai exigir nada deles para amá-los. Impossível compará-la a Deus, um ser superior que é feito de puro amor. Por que não acreditamos nele assim? Vivemos em uma sociedade em que tudo está moldado por concepções religiosas em que Deus é o julgador, o Todo Poderoso que vai queimar todo mundo que se desviar um pouquinho da Bíblia. E a Bíblia não é uma verdade absoluta. Ela foi editada, traduzida, alguns trechos e livros escolhidos para que a realidade fosse mostrada da forma como é posta. Por que se fala de Deus o dia todo? Pede para ele o dia todo? Agradece sempre. Mas falta vivê-lo, senti-lo. O Deus da Primeira Epístola de João é o todo poderoso cheio de amor. E o seu amor é incondicional.

Somos livres, isso sim. E as escolhas devem ser de nossa responsabilidade. Precisamos ouvir mais o que o nosso coração diz e fechar os ouvidos para concepções que não levam a lugar alguma: apenas a discriminação e preconceito. Aceitar que a sociedade muda, e que os valores nem sempre estão tão certos.

Sou a favor de qualquer manifestação religiosa, étnica, sexual. Não importa se você acredita em Jesus, Iansã, Buda ou outros deuses. A pergunta é: Isto te faz melhor? Te aproxima do Deus amor? Quando você sai do culto, da missa ou de qualquer outra liturgia, você respeita o próximo? Aceita a diferença? Ama o próximo como a ti mesmo? Quando Jesus falou de amar ao próximo se referia ao respeito, a não julgar o outro, mas ajudar. Você ajuda a quem precisa quando sai da liturgia ou tudo que o padre, pastor, rabino ou outro líder falou serviu apenas para apontar ou julgar o outro? Não importa se você vai à procissão de Nossa Senhora, se vai ao Marcha pra Jesus, a um Terreiro ou qualquer outra manifestação, o que importa é como você sai de lá: disposto a melhorar ou vai continuar a ferir o outro, a magoar, a julgar.

Somos ainda tão primitivos. Falo em primitividade, não como tradicionalismo (acredito em valores), mas como seres que se recusam a pensar, a olhar para a realidade. Somos falhos e passíveis a qualquer tipo de preconceito. Não negamos nossa natureza humana. A primitividade está tão enraizada em nossos pensamentos que ainda achamos que existe lugar para rico e para pobre, que negro não é digno disso ou aquilo, que cristãos estão salvos e seguidores do candomblé são satânicos, que cometemos bullying contra gordinhos, somos homofóbicos. Isso é o quê? Preconceito. Somos tão primatas que precisamos de uma lei para defender negros. Nos defender da nossa própria ignorância. Somos instruídos a não respeitar as diferenças. E esta falta falta de respeito é consequência da discriminação. Da violência em qualquer aspecto. Tudo que foge à explicação humana é julgado incorreto, impuro ou se a Bíblia não explica, é pecado. A verdade é que somos tão acostumados a não pensar, racionar, OUVIR o outro que somos preconceituosos. A Igreja Católica em nome de Deus tinha a autoridade para dizer que a raça negra era inferior e deveria ser escravizada. "Bem, já que é Deus que está dizendo..." Cadê o Deus amor? Ele não ama o negro da mesma forma que os brancos. É este o destino que ele dá as pessoas que possuem pele mais escura? Ironizo a situação, não a Deus. Porque Deus NÃO precisa de ninguém para falar por ele. Porque Deus não é fala, é presença. "Deus também mandou excluir os deficientes", assim falou a Igreja Católica. E Deus isso, e Deus aquilo. Sempre foi assim.

Quem ousa dizer que o pastor está errado? Afinal, é Deus que está soprando isso no ouvido dele. Eu não sou instruído (sou burro demais, não passei tantos anos na faculdade entendendo a língua de Deus). Ele sim, dedicou-se tantos anos a isso. Apenas ele consegue entender o que Deus quer dizer. Vou continuar sentado ouvindo e praticando tudo o que o padre, o pastor, o rabino, o pai de santo, os líderes religiosos dizem, pois só eles podem conhecer a verdade. Eu devo ouvir e obedecer suas palavras, ops, as palavras de Deus, pois são os abençoados, os escolhidos.

Eu prefiro ficar na ignorância, fingir que entendo tudo e praticar tudo que eles dizem. Não importa se estou ferindo a integridade física, moral do próximo. Deus mandou dizer que isso e aquilo é pecado, então, quem sou eu para racionar, tentar pensar um pouco. Afinal, depois de fazer tudo - passo-a-passo que Deus disse vou para o céu, fizer feliz para sempre.


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O que realmente acontece entre as imagens?

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Comentário sobre o filme "Filme Antes do Filme" de Werner Nekes.



Filme Antes do Filme (Alemanha Ocidental, 1985)
Duração: 83 min
Direção e roteiro: Werner Nekes
Fotografia: Bern Upnmook
Música: Anthony Moore



Werner Nekes reúne no “Filme Antes do Filme” uma retrospectiva histórica e bibliográfica do cinema. Produzido com recursos do Mitteln der Filmförderung NRW, reúne objetos cinematográficos, imagens antigas, cenas de efeitos especiais que transpõem cinco séculos. Uma obra documental que remota a história do cinema desde os primórdios, com a invenção e manipulação da fotografia.
Nekes começa dizendo que o olho humano é lento, incapaz de acompanhar a velocidade com que as imagens são projetadas. Toda percepção visual, segundo ele, inclui a interpretação de imagens. As imagens podem se movimentar, e era nisso que acreditavam os autores das primeiras invenções cinematográficas. Entre esses inventos, está o Traumatropo, o disco mágico de 1826 que é a invenção mais importante na transformação visual. Para ele, o cinema nasceu logo que alguém foi capaz de dividir o fluxo de imagens tanto para captura e projeção. E a tecnologia moderna usa os princípios dos instrumentos antigos.
            Este filme mostra em detalhes as invenções importantes para cinematografia e toda a magia que envolveu a produção e manipulação das imagens. Apresenta o teatro de sombras, que representa a mais antiga forma de utilização artística da luz. Sendo este o precursor do desenho animado. Enquanto a câmara obscura conduzia o cinema através da fotografia, a lanterna mágica conduzia, através da projeção, ao espiscópio da projeção de imagem até finalmente, a projeção de filmes. Antecipados muitas das expressões sobre os filmes atuais.
            Uma simples iluminação por trás, alinhada a uma técnica, pode tornar uma imagem com mais expressão e sentido. A imagem pode ser vista de perspectivas diferentes e tomarem sentidos, contornos e novas formas. Tudo isso é possível com a manipulação da luz. E isso foi descoberto aos poucos e ao longo dos anos estas técnicas foram aprimoradas, ganhando novos recursos e sofisticação até chegar ao cinema atual.
O filme começa com a pergunta: “O que realmente acontece entre as imagens?” Sim, são imagens em movimento, produzindo ilusão de óptica. Nekes mostra de forma prática a montagem de instrumentos usados na projeção das imagens, assim como os efeitos, tornando o “Filme Antes do Filme” ainda mais rico em detalhes. Ajuda a entender que o cinema é uma representação artificial da vida, cheios de fantasias, efeitos e magia. O homem sempre tentou insuflar vida à matéria inerte. O espectador percebe que as grandes produções atuais começaram com efeitos rústicos, recursos modestos. O estilo documental torna este filme único, pois serve para entender as origens da magnífica arte da produção cinematográfica e perceber, principalmente, que o cinema não foi inventado por um único indivíduo. 

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Recife: 475 anos! Ainda mais histórica

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Recife: 475 anos! Ainda mais histórica

Lá se vão 475 anos de história. Por quantas transformações passastes. Transformação lenta e contínua. Quantas batalhas já abrigastes. O grito de independência soou por aqui. Quantos eventos. Quanta cultura. Ah, que história!
Ontem (12/03/2012) completastes o teu aniversário de nº 475. Andei por ti ontem e não pude notar que era uma data tão especial. Não notei das pessoas - nem nos seus gestos, nem nas suas atitudes vibração pelos tantos anos de lutas e conquistas. Parece que ninguém percebeu que tornastes ainda mais histórica. Nem pareceu um dia especial. Não amanhecestes mais bela no teu dia. Nenhum enfeite. Nenhuma atenção especial. Nem brilhastes. Parecestes tão comum ontem. Todos trabalharam e nenhum pouco de dedicação exclusiva a ti.
Um bolo de 475 quilos quer dizer o que pra você? Tua data foi comemorada em teus bairros? Nas esquinas houveram brindes? Quantos anos fizestes hoje? Certamente, muitos não souberam e nem saberão dizer. Não fizeram ideia, esqueceram. Não te reservaram este dia. Não decretaram feriado.
Talvez gostes de ver tuas ruas em movimento. O bairro de São José pegando fogo, as pontes com um vaivém de gente, a Agamenon Magalhães com seu trânsito matinal e a Conde da Boa Vista bem movimentada no seu fim de expediente. Recife gosta de movimento, de rotina.
Deves ser amada quantas vezes no ano? Trezentas e sessenta e cinco vezes e mais uma nos anos bissextos. Mais uma ano para a história da nossa Veneza Brasileira. Recife dormirá hoje para viver movimentada amanhã e (se Deus quiser!) mais 475 anos de efervescência. 

Agora é minha hora de parar, olhar para este céu nublado que te foi presenteado de aniversário para dizer bem baixinho, sussurrando: "parabéns!".

Recife, poesia

Amar mulheres, várias.
Amar cidades, só uma - Recife.
E assim mesmo com as suas pontes,
e os seus rios que cantam,
e seus jardins leves como sonâmbulos
e suas esquinas que desdobram os sonhos de Nassau.

Amar senhoras, muitas. Cidade,
só uma, e assim mesmo com o vento amplo do Atlântico
e o sol do Nordeste entre as mãos.

Felizes os jovens poetas que recebem em seus corações
antes do amor e depois da infância
a palavra, a cidade Recife.
Felizes os poetas que podem lembrar-se eternamente
das pontes que separavam: ia-se a noite
no Capibaribe, e as águas do Beberibe
te davam, ó Madalena
o meu primeiro verso.

Corola diante do mar,
bares da arte poética,
bondes, navios, aviões.
Cidade, meus pés transportam as tuas pontes
para margens versáteis.

Igrejas nos postais, namorados nos portais.
Recife de meu pai,
Recife que me deu a poesia sem que eu pedisse nada,
cidade onde se descobre Rimbaud,
a maresia de antigamente em meus olhos abertos.
Mulheres, inúmeras. Cidade, só uma
e assim mesmo diante do mar.

Lêdo Ivo
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Garotinha do Papai (Bebida e Direção)

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Recebi um email (em formato de spam) com esta história. Verdadeira ou não, é muito reflexiva. Nossas ações também poderão refletir no destino dos outros.


"Mãe!
Fui a uma festa, e me lembrei do que você me disse. Você me pediu que eu não tomasse álcool.
Então, ao invés disso, tomei uma 'Sprite'.
Senti orgulho de mim mesma, e do modo como você disse que eu me sentiria e que não deveria beber e dirigir.
Ao contrário do que alguns amigos me disseram, fiz uma escolha saudável, e teu conselho foi correto.
E quando a festa finalmente acabou, e o pessoal começou a dirigir sem condições...
Fui para o meu carro, na certeza de que iria para casa em paz..
Eu nunca poderia imaginar o que estava me aguardando, mãe...
Algo que eu não poderia esperar ....
Agora estou jogada na rua, e ouvi o policial dizer:
'O rapaz que causou este acidente estava bêbado'...
Mãe; sua voz parecia tão distante...
Meu sangue está escorrido por todos os lados e eu estou tentando com todas as minhas forças, não chorar...
Posso ouvir os para-médicos dizerem:
- 'A garota vai morrer' .
Tenho certeza de que o garoto não tinha a menor idéia, enquanto ele estava a toda velocidade, afinal, ele decidiu beber e dirigir, e agora tenho que morrer..
Então por que as pessoas fazem isso, mãe?
Sabendo que isto vai arruinar vidas?
E agora a dor está me cortando como uma centena de facas afiadas...
Diga a minha irmã para não ficar assustada, mãe!
Diga ao Papai que ele seja forte... E quando eu for para o céu, escreva 'Garotinha do Papai' na minha sepultura.

Alguém deveria ter dito aquele garoto que é errado beber e dirigir.
Talvez, se seus pais tivessem dito, eu ainda estaria com Possibilidades de continuar viva.
Minha respiração está ficando mais fraca, mãe, e estou realmente ficando com medo...
Estes são meus momentos finais e me sinto tão despreparada ...!
Eu gostaria que você pudesse me abraçar, mãe... Enquanto estou
Estirada aqui, morrendo, eu gostaria de poder dizer que te amo, mãe.!
Então.... Te amo e adeus...!'"



Imagem: Disponível em Higor Design

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Crônica: "Por que eu?"

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Esta crônica foi escrita em setembro/2009 e estou publicando novamente neste blog. É um fato fictício, mas que fala um pouco de cidadania. Não esqueçam de avaliar.

- E porque eu tenho que ceder meu lugar? - pergunta a moça, irritada.
- Porque você é a pessoa mais jovem neste ônibus não vê? - responde a senhora do lado.
- Por que a senhora mesma não faz isso?
- Ô garota, vê se te manca. Dá logo teu lugar. - falou uma pessoa do fundo da lotação.
- Todo mundo vai se meter e virar juiz agora é? - fala a moça sem paciência.
- Não é isso. Você não nota que esta é uma senhora de idade e que tem seus direitos? - diz o senhor da frente.
- Eu também tenho meus direitos. Você sabe de onde venho?
- Minha filha, não importa de onde você veio. Todos nós trabalhamos e estamos muito cansados. - responde o senhor do lado.
- Trabalho o dia todo numa loja no centro. São doze horas por dia. Só paro para almoçar e olhe lá. Quando pego o ônibus tem um monte de gente querendo mandar em mim. Ah, tenha dó! - diz a moça muito irritada.
- Como assim? Você acha o quê? Sou empregada doméstica. Lavo, passo e cozinho o dia inteiro. Minha coluna não aguenta mais. - depõe uma senhora sentada na cadeira da frente.
- Sou professor, passei o dia todo em pé. Leciono em cinco turmas diferentes por turno, só hoje fiquei com 18 turmas. Estou morto, não posso dar meu lugar.
- Eu também não posso. Tenho varizes e à noite elas me incomodam muito.
- Eu passei o dia todo atrás de emprego. Meu pés estão calejados.
- Vocês acham que vida de ambulante é fácil? Tenho que andar de lá prá cá...
- Eu trabalho longe e ainda pego quatro ônibus...
- Eu acordo as três da manhã todos os dias. Estou exausto...
- Eu estou acordado desde ontem. Ainda nem dormi. Sou segurança. Estou exausto também.
- Eu só vou descer no terminal.
- Eu não posso ceder meu lugar, estou em pé.
- Eu tenho artrite, não posso...
- Eu tenho carteirinha de livre acesso.
- E porque o cobrador não dá seu lugar para essa pobre velhinha? Ele passa o dia todo sentado... - sugeriu alguém.
- Imagina? Não posso. Como vou passar o troco?
- E porque essa velha está aqui atrás? O lugar deles não é lá na frente?
- Eu não posso dar meu lugar porque estou passando mal. Tenho que ficar na janela.

A confusão continuava. As pessoas lançavam seus argumentos para não ceder o seu lugar à velha senhora. O ônibus trepidava.
A senhora olhava tudo com bastante atenção, exatamente do jeito como havia entrado na lotação. Não havia soltado um única palavra. O barulho continuava, as pessoas discutiam. De repente aquela voz fina e cansada ecoou.
- Calem-se!
Todos ficaram pasmados. Aquela senhora idosa, de cabelos brancos gritou as primeiras palavras desde que embarcara.
- Eu por acaso pedi um lugar a alguém? Sou velha sim. Tenho 80 anos e sei dos meus direitos. Já trabalhei no comércio, acordava muito cedo e hoje sou professora aposentada. Não reclamo da minha velhice, muito pelo contrário, agradeço a Deus por estar viva e saudável. Sempre acordei as três da manhã e ia trabalhar com minha família na feira da cidade, caminhávamos oito quilômetros. Fui professora. Minha vida não foi fácil, nem por isso deixava de ser cordial e de respeitar os direitos dos outros. Muitas vezes deixe de pensar apenas como "eu" e pensar em "nós". Quantas vezes abri mão das coisas que gostava para educar seus pais, vocês e até mesmo seus filhos?
Silêncio total no ônibus. As pessoas não conseguiam olhar para mais ninguém. A viagem tornou-se a mais silenciosa.
- A vida é passageira. É como um ônibus. Nós somos o motorista. Se dirigirmos mal, todos vão reclamar. Mas se dirigimos bem, a viagem torna-se agradável, mesmo que ela seja cheia de outros problemas. Se perdemos o ônibus, temos que mudar nossa vida toda, mesmo que seja por apenas um dia. - completou a velha senhora, já sem voz.
O único barulho que se ouvia era do movimento na rua. A velha continuou em pé. Todos morrendo de vergonha torciam para que sua parada chegasse logo. E foram descendo, um a um, sem mas nenhuma palavra.
A campanhia do ônibus tocou pela última vez antes do terminal, quando a velha desceu e seguiu pela rua enquanto todos se preparavem para descer no terminal.

Setembro, 2009.
Domingos Severino Santiago

Todos os direitos reservados a Domingos Severino Santiago. É proibida a reprodução parcial ou total, sem atribuição dos créditos ao mesmo.
Imagem: Grupo de Ajuda Mútua | Cuidar de Idosos
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As amarras sociais do preconceito racial

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As amarras sociais do preconceito racial
As leis anti-racistas são eficazes em coibir a discriminação, no entanto o estigma social ainda perdura.


Constata-se que o preconceito racial ainda está presente em diversas partes do mundo e tem moldado as sociedades desde o início dos tempos. Uma das consequências deste tipo de preconceito nada mais é que a discriminação. Do nazismo à guerra civil em Ruanda ou mesmo o genocídio dos indígenas estadunidenses, o preconceito de raça tem resultado em atrocidades. É bem verdade que a humanidade já deu passos importantes na luta anti-racista através da aprovação de legislações, mas nem de longe o problema parece resolvido.

A manifestação da discriminação nada mais é que a perseguição através da violência física, praticada por grupos extremistas ou mesmo atos individuais, que incitam o ódio e a intolerância, visando exterminar determinado grupo de pessoas por suas características étnicas. O sujeito, também, é estigmatizado e é visto como impotente não só pelo caráter individual, mas por sua marca – cor, etnia.

No século XIX, por exemplo, a população indígena dos Estados Unidos foi quase que totalmente dizimada. Dos 25 milhões de índios, os 2 milhões restantes chegaram aos tempos modernos em condições nada gloriosas e lutam por uma posição digna na sociedade estadunidense. O genocídio em Ruanda de 1994 deixa clara a relação étnica de inferiorizarão racial. Os grupos Tutsis e Hutus se enfrentaram em uma guerra civil entre negros em que 800 mil pessoas foram assassinadas. Na Alemanha nazista, Hitler pregava a superioridade da raça Ariana, e perseguiam qualquer um que não se enquadrasse neste perfil étnico. Esta perseguição étnica foi, senão, o principal motivo do holocausto.

A luta anti-racista parece ter tomado um novo rumo nas sociedades contemporâneas. A começar pela aprovação de legislações que punem qualquer tipo de manifestação discriminatória - seja pela violência física ou verbal. No entanto, a lei parece ser mais eficaz em impedir a discriminação, mas o estigma social ainda permanece. O pensamento de incapacidade de determinada raça ainda está longe de ser eliminada, parece perpetuar-se na mente das pessoas.

Em virtude disso conclui-se que o preconceito racial manifesta-se em diversos tipos de violência – física ou verbal e é fruto da desigualdade social entre grupos distintos: negros, brancos, índios e tantas outras etnias, hierarquização de classes, exclusão social, e possui dimensões múltiplas: econômica, política e social. É sabido que para eliminar o preconceito – qualquer tipo, - faz-se necessário o fortalecimento de instituições autônomas, também com a mobilização em diversos espaços da sociedade com a mediação de nossas diversas instituições e organizações sociais.
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Criminalidade: tanto faz dentro ou fora da periferia

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Criminalidade: tanto faz dentro ou fora da periferia
A maioria dos brasileiros carece de atenção social


A natureza econômica da criminalidade no nosso país é evidente: é discrepante a diferença de condições de vida entre mais ricos e mais pobres. Pouco tem sido a atenção social à grande maioria dos brasileiros. E ainda não se investe fortemente em cidadania e a oferta de serviços básicos (saúde, educação, esporte, lazer) tem sido ineficaz a todos. A evidência é ainda maior para a maioria dos brasileiros que vivem em péssimas condições de vida, onde o estado parece ausente. Aliada às estas condições a criminalidade parecer estar cada dia mais forte, principalmente entre os mais jovens.

É necessário antes de tudo fornecer as condições sociais mínimas a esta maioria dos brasileiros que sem encontram nas periferias de nossas cidades. Esta melhoria trata-se não só de uma questão de segurança pública, mas no exercício de cidadania garantido através da declaração universal dos direitos humanos. O combate à criminalidade não cabe apenas ao discurso da segurança pública, mas à eficácia de serviços sociais como a educação, saúde, lazer, esporte.

Não é possível esperar menos criminalidade num país onde crianças e jovens têm poucas oportunidades e mal participam de atividades que as deixem distantes desta prática. É necessário entender que a disparidade que ocorre no processo de distribuição de renda no país, onde grande parte da renda está sob controle de uma minoria é resultado da ausência do estado. E esta ausência permite que as pessoas passem a criar suas próprias leis, estabeleçam suas regras e normas – existindo então o poder paralelo. A existência deste tipo de poder molda o tráfico, a violência e o medo.

Não quer dizer que a criminalidade é consequência exclusiva das condições de vida das pessoas, mas ela está enraizada na falta de atenção social à maioria dos brasileiros. Enquanto não houver investimento social concreto, possibilitando a plena prática da cidadania, o crime continuará feroz. A melhoria das condições da vida dos brasileiros não só garantirá a redução da criminalidade, mas também o bem estar social. É urgente a necessidade de investimentos que afastem os jovens das ruas, da criminalidade, do tráfico. Só assim, as oportunidades estarão acessíveis a todos.

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